Zangareio de Flávio de Araújo



Para quem tá viajando na maionese

a picareta cultural não é um fenômeno
de explicações.

é uma festa que mistura elementos
fundamentais à formação intelectual
dos indivíduos. a clássica trindade
que gera todo tipo de amizades:
cachaça, poesia e música.




tudo no mesmo lugar e ao mesmo tempo.

diferentemente do que acontece
fora desse mundo de utopia, seus
organizadores sofrem de distúrbios mentais
gravíssimos e não visam ter lucro nenhum
com o evento (muito sério).

a entrada do evento é FRANCA e tudo
que acontecerá nele depende única e exclusiva-
mente da presença da galera ('o dinheiro ou
a galera?' - ver in: justus, roberto - 100 contra 1;
ed. SBT; 2009).

queremos que todos possam curtir
e usufruir dessa brincadeira (ia usar o termo
picadeiro, mas isso é batido e circense,
o que infelizmente me deixa mal porque
não me dou bem com palhaços).

ficaqui o mais que sincero convite
aos simpáticos representantes dessa galeria
de música cachaça et poesya.

não vacilem e apareçam,
porque o que importa mesmo
é fazer história.

rá!



Escrito por Flávio de Araújo às 11h29
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A mulher debruçada na janela

 

A mulher debruçada na janela

Zomba do homem com muletas

Escarnece do padeiro banguela.

A mulher debruçada na janela

Zomba dentro do biombo.

Mulher sem coração

Zoa o frango da botica

E o Elesbão fumando pita.

Mulher de micagem

Da janela imita o pastor

Arremeda também o frade.

Mulher de beiço pintado.

Joga água nos turistas

Passa trote aos taxistas

Gargalha mais

Quando bem sucedida.

A mulher debruçada na janela

Não tem mãe viva.

Não tem filha debruçada na janela

Sequer um canário Belga.

Certo dia

A dona zombeteira

Não abriu a janela

E deram falta do seu debruço

Do cuspo de sua goela.

Foi então que souberam

Que a mulher debruçada na janela,

Tinha ido operar as varizes.

 

Flávio de Araújo



Escrito por Flávio de Araújo às 00h14
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Segredos

Proposto aos enigmas

O mundo será pequeno demais.

O céu será tocado

O mar varrido por suas mãos.

Mas nunca saberás de verdade

O que se esconde, dentro

De uma bolsa de mulher.

 

 

Flávio de Araújo



Escrito por Flávio de Araújo às 23h39
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                                                        ...Balão

             

         Revolução a bordo de um ...

 

Balão

 

 

Nada tão artifício humano

Movido pelo sopro de ninguém.

 

S          o          l           t              o

 

Balão

 

a esmo.

gás volátil

a serviço

               do

                             pretexto            do

                                                        

                                                                   V

 

                                                              o

 

 

                                                                   o.

                                         

 

Balão.                                                         ã    

 

                                                         l

                                                 a

 

                                          B

 

 

Todo Balão é um sufrágio ao céu

E uma ameaça à tirania.

 

 

 

Flávio de Araújo



Escrito por Flávio de Araújo às 16h52
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O corpo que flutuava

Um corpo flutuava no mar de azeite
E foi essa a maior lembrança de sua pouca juventude.
Não era uma carcaça de navio
Nem era uma parte da floresta
Que havia se desprendido para o mar
Mas a sólida matéria que um dia Deus soprou
O seu espírito.
Estava vestida de cinza como a escura borrasca do céu.
No longuíssimo cabelo se apinhavam crustáceos
De mil cores e sua pele mantinha a nitidez
De mulher cuidada com especiarias
Mas não havia beleza alguma.
A face dos pescadores estava mais salgada,
Feito peixe que salgavam pois escorria de seus olhos
Indo parar em suas bocas rachadas, um líquido
Que lembrava o gosto de salmoura. E em suas cabeças
O incessante clamor pelo poder do sangue de Jesus.
Era um corpo de mulher
Era o que se sabia.
As vagas do mar a puxavam para uma dança
Sem música, não aparentava madureza
Nem sinal que a identificasse.
Só se ouvia meu Deus!
Várias vezes meu Deus!
Meu Deus!
Era um corpo de mulher que flutuava
E ela nem fazia parte das coisas do mar.
Era alguém em que se procurava uma semelhança
Um nome, uma vontade de morte.
O mar de almirante se fez tormenta
Veio o céu coberto de fel dos peixes
O velho Marçal secava sargos
No varal de bambu gigante.
Uma revolução explodia naquele ano de 64,
E meu avô a luz de uma lamparina a querosene
Sempre indagando aos netos a sabença da história
Do corpo que flutuava.
Era uma história que estávamos velhos de saber
Mas sempre dizíamos que não sabíamos.
E ele contava a mesma história
Que há tempos se contava, que há tempos
Deixava nossas cabeças fermentadas.
Era um corpo de mulher que flutuava num mar de azeite.
Essa era a maior lembrança da pouca juventude de meu avô.

Flávio de Araújo



Escrito por Flávio de Araújo às 01h17
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foto: Sérgio Fonseca

 

Mulher amarga seguindo cortejo

 

De terço nas mãos e alma compungida

renega o deus que roubou o marido

enforcando as contas de madrepérola.

Reprime o céu belo em azul infinito.

Roga que sobre o resto de seus dias

a monção violeta de trevas cubra a noite

feito manto de lamento.

O caminhar contido como o andar servil

de uma pagadora de promessas.

Andarilha que nega a remissão da paga

pois não é fé de romeira

mas descabelo de louca.

O olhar infeccionado, ardil em pus,

putrefaz quem o encara.

Dela fogem todas as raças de cães

a uivar desembestados.

Segue sem pestanejar

como se não restassem caminhos

mas a precisão dos passos.

É notório o choro que balbucia pequeno.

Prestam-lhe pêsames e se condoem

pelo fatídico episódio de dor

porém não há quem não afirme,

em silêncio,

a sua preferência pelo morto.

 

Flávio de Araújo



Escrito por Flávio de Araújo às 01h11
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Corrupção de homens

 

Talvez essa minha resistência em viver

cubra de propriedade singular meu nome infame.

 

Nascido sob o signo da tragicidade de minha gente

me criei sobre o chão em que os homens só se davam

por completos quando desfaleciam as próprias mães

em desespero.

Os meios diversos em tentar suprir as necessidades afetuosas

punham-nos em vergonha perpétua.

Amar declarado era sempre acinte na boca da minha juventude.

Chorávamos por detrás das bebidas prediletas em forma de gargalhadas.

Nossa fala era a língua do aço em lâmina única,

presa à cintura pelo cordame de couro, ainda cheirando a carne postejada.

E o contestado chegava ao consenso de sangue, que borbotava pela palavra

fincada entre as costelas.

Segredava-se quase tudo. Mas confiava-se muito pouco.

De modo que a verdade de Salazar

era a mentira de Procópio.

 

Mas nem tudo era de se maldizer.

Domesticávamos os animais diversos sobre os ombros, iguanas,

papagaios falantes, aracnídeos.

Vivíamos em serpentários à procura do lacrau de dente

e da áspide que silva.

 

Inventamos modos e modas.

Das ofensas públicas ao soco que corta o ar no diafragma.

Todo mundo há de morrer decerto,

dizíamos cientes que nosso dia

estava crivado em vermelho-carmim

num calendário qualquer

na casa dos muitos desafetos.

 

Mas o dia chega obstinado

como cardume que se entralha na rede de espera.

Tange os olhos, feito cisco que o pranto tenta desmentir

no viver que nos corrompe.

Porém próprio da vida, converte quem dela não se apropria

em vultos e ordinários.

 

Creio em Deus e no tempo.

Pois Deus é infinito em misericórdia.

E o tempo, um gole para embriagar-me de esquecimento.

 

Flávio de Araújo




Escrito por Flávio de Araújo às 01h08
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Escrito por Flávio de Araújo às 14h42
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Poema para quem morre

ou vive de amor

 

Quem ama fala grego

paga mico, fica bobo.

Se perfuma demais

mete-se a contar histórias

sem a menor graça

e sempre acaba esquecendo

o fim da piada.

 

Quem ama fica em dúvida

em para qual lado penteia o cabelo.

Canta as músicas do Cauby Peixoto,

ensaia discurso frente ao espelho.

 

Quem ama tem na ponta da língua

versos de Drummond.

Não se importa em ficar resfriado

por andar flutuando na chuva.

 

Vive mostrando os dentes

achando que todo mundo é dentista.

 

Quem ama está pronto para heroísmos

e se dispõe a emprestar qualquer coisa

que a pessoa amada queira.

 

Quem ama mostra para todos

a foto 3X4, guardada na carteira.

Não compreende o cansaço

e as distancias.

Não dá ouvido ao disse-me-disse.

 

Quem ama se endivida, pois

acha muito justo

o preço do colar em ouro e coral.

 

Quem ama aprende a fritar ovos

pra dizer que sabe cozinhar.

E acaba queimando os lençóis,

e manchando as camisas

só pra dizer que sabe lavar e passar.

 

Quem ama confia e não se fia

que o ciúme é o termômetro

de um bom relacionamento.

Põe-se a escrever cartas ridículas.

 

Quem ama valoriza as pequenas coisas

tipo fio de cabelo e chiclete mastigado.

Gosta de ouvir música melosa

melando todos a sua volta.

 

Quem ama chora,

suspira de cinco em cinco minutos

perde a noção do tempo.

 

Quem ama sempre vê a lua

de um ângulo diferente.

Ouve com atenção

os mais experientes no assunto.

 

Quem ama não mata.

Morre de amor.

 

Quem ama tira notas baixas

mas se esforça e recupera.

 

Quem ama tem a sensação de levitar

toda vez que encontra a pessoa amada.

Gagueja as palavras óbvias,

sofre por abstinência de beijos e abraços.

 

Quem ama, jiló é doce.

Que nariz de porco é 220v

Que Times is love.

 

Flávio de Araújo



Escrito por Flávio de Araújo às 12h35
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Peixaria

Alôito na Peixaria

Para minha avó Dinah

Moro em parati

embora lula presidente

aqui quem manda é o polvo

fruto do mar é a gente.

Gosto de perna de moça

Sai de banda baiacu

Olhudo eu mostro linguado

Mando lamber sururu

Visto casaco de ferro

Toco meu cação viola

Não sou de fugir da arraia

Sou cascudo feito santola

Quero ser seu namorado

Não fique assim tão bicuda

Venha cá maria mole

Meu cação anjo te ajuda.

Pindá pra mim seu gudião

que bate qual cação martelo

não sou mais siri cagão

feito marlim do amarelo

Peragica um pouquinho

Deixa eu ficar mais bonito

Seu coração vou robalo

Com o terno do João Zé gonguito.

Mira não vá embora

Pela trilha da baquara

Se for leve meu galo

Minha espada na bandola.

Vamos andar de chicharro

Dançar na salambiguara

Depois chame seu sargo

Pra cavalgar de cavala

Minha bela prejereba

Só pra você tiro o xaréu

Esse teu olho de boi

Pregoaí meu coração no céu.

Em terra de Corcoroca

Quem tem escama é peixe-reis

Peixe agulha não se invoca

Em malha de fio japonês.

Eu sei que sou carapau

Um mero cabeça de bagre

Mas não cangulo desaforo

De porco nem roncador

Não vá ouvir imbetara

Que dona cambeva falou

Ela só faz sororoca

De peixe trabalhador.

Vá pra minha casa

Guivira à esquerda

Vendo a casa do tainha

Tu cambira pra direita

Pergunte pra dona caranha

Onde mora tal pescador

eu tiúna pampo pampo

Tô com saudade canhanha!

Moro em parati

Embora lula presidente

Aqui quem manda é o polvo

Fruto do mar é a gente.

Obs. Todos os nomes em negrito correspondem a peixes,

moluscos e crustáceos geralmente encontrados

nas peixarias de Paraty.



Escrito por Flávio de Araújo às 15h42
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nonsense

toda idéia nova
só precisa de tempo
para tornar-se velha


toda idéia velha
se revista a tempo
vai parecer nova

a última grande idéia
que teve o homem foi a roda
e ela esta aí até hoje
todo o resto saiu de moda

não quero ouvir falar
das grandes verdades

prefiro verdades pequenas

grandes verdades
parecem pequenas mentiras

sendo assim
quem veio primeiro?
o ovo ou a galinha?

entre o ovo e a galinha
fico com a coxinha
que vai ovo na massa
e galinha no recheio
e sei perfeitamente
pro que serve
e pro que veio
e todo o resto
é devaneio


EdimoGinot



Escrito por Flávio de Araújo às 15h08
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                                                                  IPANEMA

 

 

 

É preciso fazer um poema sobre Ipanema...

 

Um poema que sabe a sol posto

- hóstia de ouro na boca do poente –

e que espalhe entre o rumor das gentes

o pólen das mãos.

 

Um poema de pedra, de sonhos, de sais,

de águas bebendo milhares de sóis;

um poema-Arpoador,

embebendo em luz e azul

a dor cinza das retinas.

 

É preciso palmilhar os rastros

cheios de doçura e graça

da moça dourada no chão do poema.

Quero despir Ipanema

prenhe de Leilas e Helôs,

e com o cheiro da cor de ruidosas manhãs

e a ternura dos velhos e cães do passeio,

quero vestir o poema.

 

Um poema cosido no tear das horas,

filho da memória das cãs de Ipanema:

a Banda, o Cinema, a Bossa, o Pasquim,

os bares, o Píer, as dunas, as vagas,

as límpidas águas, negando o tupi,

Vinícius à lira em busca de Tom,

pecados sepultos na Paz da Matriz.

 

Um poema de sons e vertigens

grafados na língua de Chevalier.

Ah, Ipanema!

Roniquito dorme à luz dos “postes bêbados”.

 

Notívagos bebem, ordenhando a noite

nos bancos da Bossa,

e o leite-canção que sobeja o poema

- maná de Ipanema - alimenta as almas

fora dos muros da tribo.

 

É preciso fazer um poema sobre Ipanema...

Mas eu nunca fui lá.

Wender Montenegro



Escrito por Flávio de Araújo às 14h45
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Escrito por Flávio de Araújo às 14h33
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http://cienciahoje.uol.com.br/images/chc/162/3978a.jpg

             Mora na Filosofia

 

No reino animal

cavalo não filosofa

sobre de onde veio,


nem elefante questiona

sobre para onde vai.


A macacada pula perplexa

é sobre o porquê lagartixa

perde o rabo.

Flávio de Araújo

 

 



Escrito por Flávio de Araújo às 11h25
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Shiiilêncio

 

A necessidade de silêncio

Leva o dedo riste a boca

E não é o silencio que procuro.

 

O dedo que chia na boca

Traz consigo

Batom vermelho-guelra.

 

Agora eu sei.

Dos afagos

O silêncio é o mais obsceno



Escrito por Flávio de Araújo às 18h18
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