Zangareio de Flávio de Araújo


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Escrito por Flávio de Araújo às 11h26
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No Caminho, com Maiakóvski

Eduardo Alves da Costa

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

            No CAMINHO, SEM MAIAKÓVSKI.

Versão de um trecho do poema No Caminho, com Maiakovski;

             de Eduardo Alves da Costa.

 

Tu pensas que sabes

Mas a nova é pior do que a velha história.

Na primeira noite eles lincham nossos filhos

Presos a carros por quilômetros,

E mesmo sob nossos pavores, eles aceleram.

Na segunda noite, já são os de sua própria família:

Eles jogam as filhas de cima dos prédios

Assassinam seus pais

Arremessam recém-nascidos nos rios

Como sacos de lixo

E, em estado de choque,

Nos calamos.

Daí nos reunimos para o almoço de domingo

E o mais endemoninhado deles

Senta-se à nossa mesa,

E já íntimo de toda regra da casa,

Chega ao extremo do absurdo

De sequer lavar as mãos antes da refeição.

E não damos nem um pio.

 

     Flávio de Araújo



Escrito por Flávio de Araújo às 14h57
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Poema do amor procurado

Canto para Jack Estripador

 

Decepo-lhe as mãos

E delas,

Dedo após dedo,

Procuro por debaixo de seus esmaltes

O vigor que finca suas arranhaduras

Na epiderme das paixões

E não está.

 

Na altura da bela omoplata

Entranho meus porquês

Como lascivo verme

No besuntado marzipã

- vosso pescoço -

E não encontro.

 

E persigo com ferramentas cirúrgicas,

Perito que sou em vasculhar as carnes

E, lanhando, toda ela, a transformo

Em rubra seringueira.

E devasso as ligaduras do baixo ventre,

Desencaixando e trazendo novas

Articulações aos ossos.

Como abutre meticuloso,

Fidelíssimo a cada odor.

E com garras de besta fera,

Devoro suas texturas

Feito urso no mel

E nada.

 

Mas após escarnar

Tocando na harpa de suas costelas

Dou-me conta do cálice de prata.

 

Pronto para sorver a tal delícia

Que tanto busco,

Foge de mim.

 

Volto então a procurar

Em outra.

 Flávio de Araújo



Escrito por Flávio de Araújo às 14h49
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 O  Triunfo dos Porcos

 

Orgulhosos,

há um tempo atrás os homens agradeciam a Deus

por terem nascido homens.

E muitas mulheres foram postas à margem por séculos.

Hoje, com o avanço do movimento radical feminista,

as mulheres, orgulhosas, agradecem a Deus

por terem nascido mulheres,

desejando assim a extinção dos machos.

 

Com tanto orgulho no mundo,

daqui a pouco serão os porcos que agradecerão

por terem nascido porcos.

 

Flávio de Araújo



Escrito por Flávio de Araújo às 14h42
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A Graça da Desgraça

 

Quando amarraram suas tranças

na cadeira da velha escola

foi o primeiro a rir,

porque achava que rir

não era consentimento.

Depois os outros.

 

Quando resolveram jogar fezes

na parede de sua casa

e guinchar feito bichos medonhos

o primeiro a rir foi ele,

porque achava que rir disso

não era consentimento.

Depois os outros.

 

Então, quando a dominaram com éter

rasgando suas roupas,

o primeiro a estuprá-la foi ele.

Depois os outros.

 

E é sempre assim,

pois o crime obedece a certas leis de ordem:

O riso procede ao consentimento de um erro.

 

Depois os outros.

 

Flávio de Araújo



Escrito por Flávio de Araújo às 14h21
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Sem título
Ivan Serpa
Óleo sobre Tela
1964



Escrito por Flávio de Araújo às 11h52
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Minha cidade, minha vida. Meu mar, minha alma.



Escrito por Flávio de Araújo às 11h48
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Bilhete sobre a cama     

 

Eu vou

Não me siga

Eu creio na vida

Tive felicidade

Amores muito pouco.

Vou no silêncio

Como quem não incomoda.

Vou sem rodeio

Como o trem que não espera.

O que tive devolve

Reparte

Barganha.

O que fiz esquece

Relembra

Perdoa.

O que fui diga aos outros

Que tentei ser melhor.

Eu vou

Não me siga

Eu creio na vida

Tive felicidade

Amores muito pouco

Cuida do cão.

Não se mate em saudades,

Como você fica meu abraço

Fica minha saliva em tua boca.

O que sinto é que não posso ficar.

Eu vou

Não me siga

Eu creio na vida

Tive felicidade

Amores muito pouco

Cuida do cão.

Flávio de Araújo



Escrito por Flávio de Araújo às 11h43
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Praça da cruz vermelha

-Eu quero maionese.
O mendigo repetia com a força do seu hálito
A dialética dos desvalidos.
Era tarde e manhã
Como os mortos na capa do jornal.
O prédio se vestia de um verde enfermo
que eu repelia como pedras de vômito.
A cruz vermelha sob um manto
De um tão sofrimento e doença.
As cabeças rapadas.
As bocas amordaçadas como se o grito
Insubstituível não gritasse.
O que salvava eram as árvores.
Câncer algum carcomia aquelas raízes
de cem anos ou mais.
-Eu só quero maionese.
Afirmava o maltrapilho diante do vasto
Self-service na penitência de suas vontades.
Eram dias e noites
E tristeza  ou miséria
Não conseguia tomar daquele homem
A maionese de seus desígnios.

Flávio de Araújo



Escrito por Flávio de Araújo às 11h24
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DIÁLOGO SOBRE UM DIÁLOGO



Entretidos em discutir a morte, anoiteceu e não acendemos a luz.

Não víamos o rosto um do outro.
Com doçura e sem fervor, a voz de Macedonio Fernandez repetia que a alma é imortal.
Garantia que a morte não é nada.
Morrer tinha que ser o menos importante que pode acontecer a um homem.
Eu, Jorge Luis Borges, brincava com a navalha de Macedonio: abria e fechava.
Um acordeom, numa casa vizinha, despachava "la cumparsita", essa choradeira infinita e consternada de que muita gente gosta porque inventaram que é velha.
Então, para podermos continuar discutindo em paz a imortalidade, propus a Macedonio que nos suicidássemos.

Francamente, não lembro se nos suicidamos naquela noite.

Jorge Luis Borges
Traduzido e adaptado por Gregório Bacic



Escrito por Flávio de Araújo às 11h03
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Doidivanas

Arte de Lourenço Gonçalves


O que ouço de você,
meu bem
São palavras sem entrega
Essas que você emprega
Para falar de amor

Você... é doida varrida
Me varreu da sua vida 
Me expulsou como cuspe
Das entranhas da sua emoção

E ainda riu sacudida
A doida varrida
Essa mulher fingida
Quando varreu meus cacos
Porta afora do seu coração

Você tem a língua solta
Sempre envolta
Em gestos desmedidos
Mas não passam despercebidos
Esses beijos sem valor

O que ouço de você,
meu bem
É só papo furado
Essa fala que não condiz
Com o silêncio que desdiz
Esse tempo de ilusão

Não caio mais, não
Na sua conversa fiada
Nessa história abreviada
Por atalhos desviada
Num caminho sem esplendor

Conheço bem seu lero-lero
De você nada mais espero
Não sei como ainda te quero
Mas você já não me engana
Sei de sua vida leviana
Mulher doidivanas
Fico eu com a minha dor

 

Isabel de Assis Fonseca,  8/12/2008.



Escrito por Flávio de Araújo às 10h44
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Cantada clássica:

- Você gosta de açaí?

- Gosto.

- Você quer açaí comigo?

 (...)



Escrito por Flávio de Araújo às 19h11
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somente três seres sobrevivem à um ataque nuclear:

as Baratas

os escorpiões

e os imbecis.

 

Flávio de Araújo



Escrito por Flávio de Araújo às 19h05
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