Escrito por Flávio de Araújo às 22h47
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Escrito por Flávio de Araújo às 22h38
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História sucinta de uma festa literária Internacional

(FLIPORTO)

 

A África ficou mais perto. Foi a impressão maior da FLIPORTO – Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas – que aconteceu no charmoso balneário de Pernambuco, tendo como temática a diáspora africana. A FLIPORTO é uma dessas grandes festas em torno do livro que surgiram inspiradas na nossa FLIP, aliás, está acontecendo um verdadeiro boom! Literário no Brasil, eventos de norte a sul como a FLOP (Festa Literária de Ouro Preto), FLIG (Festa Literária Internacional de Garanhuns), FLAP e tantas outras em nome dos livros e escritores.

Convidado por Lucila Nogueira, curadora da FLIPORTO e importante mulher das letras que nos recebeu com incrível amabilidade, pude compreender melhor o que os livros fazem acontecer, enquanto encurtamento geográfico, social, político, para um diálogo onde todos compreendam diferenças e igualdades. Esse ano, a FLIPORTO, em sua IV edição, celebrou a literatura africana com o tema: "Trilhas da Diáspora. Literatura em África e América Latina". A festa teve nomes didáticos da questão e postulantes de uma nova visão da África, visão esta muito diferente de um continente que vemos homogeneizadas em filmes e jornais que só mostram savanas ricas de animais exóticos e miséria por fome e guerra. É verdade. Conhecemos muito pouco da África, nossa mãe, e dos africanos, nossos irmãos que nos acenam do outro lado do atlântico. Mas o papel que a literatura tem se prestado é a de servir como ponte, e cada metro desse encurtamento está na literatura feita pelo lado de lá por Pepetela e Agualusa (Angola), Mia Couto e Marcelino dos Santos, Paulina Chiziane, (Moçambique); e tantos outros que nos apresentam a África em língua Portuguesa.

Mas não só a África se fez presente na FLIPORTO, romancistas, contistas e poetas de várias partes do globo estiveram presentes, o verdadeiro pré-sal da literatura mundial.

Caso a parte foram os poetas. Diferente da última FLIP que deixou os poetas um tanto de lado, a poesia teve maciça expressão na verve de dominicanos, cubanos, espanhóis, americanos e tantos e tantos. Tive o prazer de conhecer a simpatia do poeta americano Quincy Troupe e sua voz de trovão, a força da poesia social e da amizade por detrás dos óculos de Rei Berroa (Rep. Dominicana), de ver os cabelos de neve do nosso grande poeta brasileiro Thiago de Mello, da brasilidade nos poemas de Marcus Accioly, das vozes da África no timbre de Amélia Dalomba, Tony Tcheka, Luiz Cezerilo, luiz Carlos Patraquim; dos cubanos que são gente boa até a alma: Nelson Simon e Waldo Leyva, e do engraçadíssimo José Millet, que teve algumas dificuldades ao chamar um ônibus em sua língua mãe. Em conversa, os cubanos nos comoveram como enfrentam com força e destreza, as dificuldades da ilha do general enfermo de farda verde oliva.

Participei da mesa: A trajetória OFF FLIP na FLIPORTO, juntamente com o contista Ovídio Poli Junior. Ovídio, autor de Sobre Homens e Bestas, e O caso do cavalo probo, falou, como programador literário da OFF, sobre a criação do Prêmio OFF FLIP de Literatura, e do Selo OFF FLIP, do qual participo com o livro Zangareio, e também no mesmo selo Themilton Tavares, que lançou seu infanto-juvenil: Trindade; além da coletânea de contos e poesias. Para Ovídio, o tempo foi curto para tão longa trajetória.

Quando chegou a minha vez de falar sobre o meu livro, senti que algo na sala 2 estava errado, não devido a presença abundante de ouvintes, não ao fato de ser convidado por uma festa literária internacional(ô modéstia!); mas diante de mim, na primeira fila, Affonso Romano de Sant`Anna. Romano é uma das minhas leituras de base, um formador de idéias literárias que sempre me povoa a mente. Num certo momento achei que o papel estava trocado, quase que me levantei e fui falar com o Affonso e dizer-lhe para trocarmos de lugar. Tive certo tremor e temor, não nego, de vê-lo ali, ouvinte sossegado. E respirando profundamente me pus em velocidade de cruzeiro, e contei um pouco da minha chegada até ali, do legado por ser de origem de família caiçara, e, frente a esta questão, já que o tema falava da diáspora, ou seja, da dispersão africana, contei também em breves palavras, um pouco da diáspora caiçara, do que andam fazendo com nossa gente, do genocídio (morte física) e do etnocídio (morte cultural), dos flagelos perpetrados por latifundiários, políticos sem escrúpulos e caráter, especuladores imobiliários, empresas multinacionais, que expulsam o caiçara, detentor de toda uma tradição e cultura própria, para a miséria social. Acho que contribui de alguma forma para sensibilizar o público da causa tão nobre.

Nos corredores, como tudo acontecia muito rapidamente, conversei com Carlos Minc, Ministro do Meio Ambiente, sobre a questão caiçara, e lembrou-me que está a par da seriedade que requer o assunto, falando que esteve na Praia do Sono há algum tempo atrás levando as placas solares. O mesmo disse que os equipamentos estão desativados por falta de manutenção. Minc se pôs a atentar mais ao assunto quanto aos problemas dos caiçaras.

Não vou gastar meu latim em comparação FLIP X FLIPORTO, pois é obvio que a FLIP está além de qualquer outra festa literária deste planeta, uma parte, ou a grande parte, está subscrita na grana e logística, pois o roteiro FLIP e OFF FLIP pode ser feito "di apés". O que posso dizer é que em termos de circuito paralelo a OFF FLIP é original devido a necessidade de voz que artistas locais tem de se mostrar, e não perde o chapéu ao vento, pois mesmo sem muito apoio e contando somente com os quatro cavaleiros da OFFlípse, vi que a OFF dá show em organização e desenvoltura. Também vi na pele o que a OFF representa fora das raias paratienses, o eco é forte, muito disso vem sim pela criação do Selo OFF FLIP e pelo Prêmio OFF FLIP de Literatura, além da programação extensa composta por escritores locais, nacionais e até estrangeiros.

O legado da FLIPORTO fica adiante, além dos oceanos, mas com a certeza que as ondas vindas do continente negro e que agora molham os pés desse humilde caiçara, e tenho agora a fé dos nautas, que um dia retornarão de onde foram impulsionadas. A mesma onda de palavras feita de uma oralidade tão nossa e tão deles.



Escrito por Flávio de Araújo às 22h26
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Em breve, relato sobre minha ida à FLIPORTO.

Escrito por Flávio de Araújo às 18h53
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Jura Secreta

Maria Bethania

Só uma coisa me entristece
o beijo de amor que não roubei
a jura secreta que não fiz
a briga de amor que não causei

nada do que posso me alucina
tanto quanto o que não fiz
nada que eu quero me suprime
de que por não saber ainda não quis

só uma palavra me devora
aquela que meu coração não diz
só o que me cega o que me faz infeliz
é o brilho do olhar que não sofri

só uma palavra me devora
aquela que meu coração não diz
só o que me cega o que me faz infeliz
é o brilho do olhar que não sofri

só uma coisa me entristece
o beijo de amor que não roubei
a jura secreta que não fiz
a briga de amor que não causei

nada do que posso me alucina
tanto quanto o que não fiz
nada que eu quero me suprime
de que por não saber inda não quis

só uma palavra me devora
aquela que meu coração não diz
só o que me cega o que me faz infeliz
é o brilho do olhar que não sofri

só uma palavra me devora
aquela que meu coração não diz
só o que me cega o que me faz infeliz
é o brilho do olhar que não sofri

letrasdemusicas.com.br Esta letra foi retirada do site www.letrasdemusicas.com.br
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Escrito por Flávio de Araújo às 18h50
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Grito de Alerta

Primeiro você me azucrina
Me entorta a cabeça
E me bota na boca
Um gosto amargo de fel
Depois vem chorando desculpas
Assim meio pedindo
Querendo ganhar um bocado de mel
Não vê que então eu me rasgo
Engasgo,engulo,reflito
E estendo a mão
E assim nossa vida é um rio secando
As pedras cortando
E eu vou perguntando:
-Até quando?
São tantas coisinhas miúdas
Roendo,comendo,arrasando
Aos poucos
Com o nosso ideal
São frases perdidas num mundo
De gritos e gestos
Num jogo de culpa que faz tanto mal
Não quero a razão pois eu sei
O quanto estou errado
E o quanto já fiz destruir
Só sinto no ar um momento
Em que o copo está cheio
E que já não dá mais pra engolir

Veja bem,nosso caso é uma porta entreaberta
E eu busquei a palavra mais certa
Vê se entende o meu grito de alerta
Veja bem,é o amor agitando o meu coração
Há um lado carente dizendo que sim
E essa vida da gente gritando que não



Escrito por Flávio de Araújo às 15h01
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Poesia Maluca

 

Chica doida varrida

Seu cabelo é um mexido

De macarrão, perna de cobra

 com tomada de geladeira.

Cansada de chupar

Parafusos até virar prego

Esquentou a cabeça,

Fritou dois cariocas da gema

E tomou um suco gástrico

Sem gelo e limão.

 

Por onde passa deixa seu perfume

De quadro sem moldura.

Chica Doida estudou línguas

E descobriu que tinha uma

Dentro da boca.

Era também boa em contar nos dedos

E sabia que havia cinco em cada pata,

Total doze.

 

Estava noiva do criado-mudo

Mas pegou-o no flagra

Quando ele dava um beijo na boca

Do fogão.

Enraivecida quebrou

o silêncio

Puxou a orelha

do livro

Foi ao hort-frut e jogou Baigon nas cenouras

(pois estavam muito baratas)

E num ato impensado acabou matando

A fome.

Cumpriu um ano e meio de prisão

De ventre.

Ao sair da degolacia

Levou uma mordida de um cachorro-

Quente

Sendo levada às pressas para tomar

Uma injeção de ketchup.

 

Foi aí que pirou geral

E decidiu que iria vender a alma

Para o quiabo.

Mas acabou se arrependendo

Fazendo a Deus uma oração

Subordinada

Voltando à vida anormal.

 

Chica Maluca

Gostava de cinema do tipo

Vegetariano.

Também de café

Ordenhado na hora,

Mas gostava mesmo era de leite

Pois queria longa vida.

 

Resolveu fazer faculdade

No princípio ficou em dúvida

Se escolhia Direito

Ou esquerdo.

Na primeira aula acusou o professor

De racismo

Por rabiscar o quadro negro.

 

Lia. Bastante,

Pois queria emagrecer um pouco.

Na falta de idéias sempre enfiava

O dedo na tomada.

 

Um dia, já bem anoitinha

Chica tantã

Achou um bilhete da loteca

O prêmio era um milhão.

 

Chica pirada enriqueceu

No rentável ramo

Das pamonhas de Piracicaba.

 

Flávio de Araújo



Escrito por Flávio de Araújo às 14h57
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Balada da menina descalça

 

Rita Descalça

Os pezinhos sentindo a terra fria

Tinha tanta vontade de dançar...

Mas como?

Pois sapato ela não tinha.

 

Mirava no tablado

As mocinhas todas num bailado

Sentia o coração tão grande

Olhando as roupas bonitas, as fitinhas

Queria tanto ali dançar...

Mas como?

Pois vestidinho ela não tinha.

 

Foi então que Rita Descalça

Teve idéia genial

Dançaria com graça e leveza 

No Grande Concurso Mundial

 

Sendo a última a entrar

Alguém logo gritou no ato:

Olhem a menina, ela está sem sapato!

Ouviu o gargalhar de muita gente

Pois riam de seu modo

De seu modo diferente

Talvez porque no corpo

 Rita Descalça vestia

Uma engraçada saia feita

De um branquinho saco de farinha

Os cachinhos enrolados um a um

O rosto corado de urucum

Maquiagem também não tinha.

 

Nos pés ah! Só os dedinhos sem igual

Todos aguardando juntinhos

O som belo e mavioso

Da Orquestra Imperial.

 

Começou dançando balé

Funk, hip-hop e salsa

Rita Descalça sozinha dançou valsa

Frevo, mambo, tango na ponta do pé.

 

 

E Rita Descalça dançou tanto tanto

Tanto como ninguém havia visto dançar

Parecia um peixinho no céu

Estrela vestida de véu

Um passarinho no mar.

 

 

E entre todas foi a preferida

De pé Rita Descalça foi a mais aplaudida

Deram-lhe cetro e coroa de princesa

Pois viram que estava em seus pés

E não em um sapato de mil réis

A sua verdadeira beleza.

 

 

 

E de prêmio quando lhe ofereceram sapato

E um belo vestidinho de alça

Rita logo desdenhou

E pra espanto de todos falou:

- Agora só danço descalça!

 

 

Flávio de Araújo

 



Escrito por Flávio de Araújo às 12h34
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Parcel dos Ossos

 

Estorvo.

Monturo de um marfim

infinitamente altivo e exangue.

Velamos sua distância, vendo o marolar

das espumas subir à proa

como tripulação amotinada.

 

Espécie de chamamento rochoso

a todos os calados.

Um assanhador impenitente

de velas e lemes,

feito uma fome lenta que abre suturas

nos ventres cedrosos,

na risível calafetação do casco.

 

E a fome também é sede.

Insaciada nas profunduras do mar

e suas generosidades.

 

Peca o navegador a confiar em destreza:

- A ousadia é a honra dos nautas.

 

E ele se precipita cada vez mais,

tanto para cima, quanto para baixo.

Bebericando anilhas, poitas, mastros

e não é essa a fama

de sua supra-estrutura.

Mas do que fora sustentação

da robusta carne-viva.

 

Um emaranhado:

de calcanhares, fêmures,

braços e antebraços.

De costelas,

como feitio de uma escadaria sem fim.

Crânios, anulares, carpos e metacarpos.

Falanges, omoplatas, perônios e vértebras.

Rótulas, tíbias, rádios,

artelhos, mandíbulas e ossos ilíacos.

 

E esse cavername dos oceanos

requerendo sempre mais, assim:

Coroados, vassalos, artesãos,

nascituros, guarnições.

Base do colosso

de um marfim infinitamente

altivo e exangue.

 

A todos dando a serventia de marco

para recanto do avesso que encadavera

outros em sua ossatura.

 

Clamamos pela tribuzana

para que nos sopre longe,

do que agora chamamos

Parcel dos Ossos.

Flávio de Araújo



Escrito por Flávio de Araújo às 00h02
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Eu Amo Você

Tim Maia

Composição: Indisponível

Toda vez que eu olho
Toda vez que eu chamo
Toda vez que eu penso
Em lhe dar
Ah! Ah!...

O meu amor
Oh! Oh!
Meu coração
(Pensa que não vai ser possível!)
De lhe encontrar
(Pensa que não vai ser possível!)
De lhe amar
(Pensa que não vai ser possível!)
Te conquistar
Ah!...

Eu amo você, menina
Eu amo você!
Eu amo você, menina
Uh! Uh!
Eu amo você!...

Toda vez que eu olho
Toda vez que eu chamo
Toda vez que eu penso
Em lhe dar
Ah! Ah!...

O meu amor
Oh! Oh!
Meu coração
(Pensa que não vai ser possível!)
De lhe encontrar
(Pensa que não vai ser possível!)
De lhe amar
(Pensa que não vai ser possível!)
Te conquistar
Ah!...

Eu amo você, menina
Eu amo você! juro!
Eu amo você, menina
Uh! Uh!
Eu amo você!...

Eu te amo! Eu te amo!



Escrito por Flávio de Araújo às 10h42
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EU QUIS DIZER

VOCÊ NAO QUIS

ME ESCUTAR...



Escrito por Flávio de Araújo às 21h19
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                                               Peleja do poeta Flávio Araújo

                                               com o Bruxo Jorginho Miguel

 

Caro amigo Bruxo bardo

Não digo que sou melhor cantador

Pra mode sou bem modesto.

Sou neto de Ambrósio Quirino

Nas palavras ambidestro

Que aqui em Paraty

Dou rasteira em Saci

Pois rimando só eu presto.

 

Sou versado em Esperanto

Nos mistérios naturais

Creio no meu Pai da luz

Falo desse meu Jesus

Que pisou em satanás.

Faço que faço não faço

Digo que digo não digo

Só não mangando de eu

Pois foi o que prometeu

Num forte abraço de amigo.

 

Se tu que canta Graúna

Canto mais Praia do Sono

Lugar que não abandono

Pois quem lá nasceu é dono.

Lá piscou é pirilampo

Risco de faca é vergão

Visgo de jaca é tramóia

Lanho de faca e facão

Pegue o caminho da roça

Pois senão eu faço troça

Dessa barba de urtigão.

 

Tu és neto do Ambrósio

E do Antônio Zebrão

A sua falsa modéstia

Vai ser sua perdição.

Sou rigidez da braúna

Sou nascido na Graúna

Sou um calangueador

Sou o gume da espada

Sou a peroba rosada

Sou muito mais cantador.

 

Sou versado em ocultismo

Creio no Jesus amado

Que morreu crucificado

Flavinho, estás a perigo

Esse tal digo não digo

Papo de faço não faço

Sou mais duro que o aço

Mais forte é minha palavra

Esqueça minha bondade

Pois não tenho piedade

Com cantor da sua lavra.

 

Não canto só a Graúna

Sou a doçura do verso

Canto todo o universo

Flavinho, tome cuidado

Eu quando estou invocado

Pego estrelas com a mão

A tal barba de urtigão?

Moleque tenha respeito!

Se prepare pra apanhar

Tens que suar pra rimar

Comigo cantar direito.



Escrito por Flávio de Araújo às 00h06
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Entrevista / Flávio de Araújo

Jorginho Miguel teve uma divertida conversa com Flávio de Araújo, que estará lançando seu primeiro livro: "ZANGAREIO", dia 03 de julho (quinta-feira), na Casa da Cultura. Flávio falou sobre livros, sobre a Praia do Sono, e das histórias de pescador, legado da oralidade familiar. Também sobre seu trabalho no JORNAL DE PARATY.

Jorginho Miguel – Flávio, Paraty é a cidade dos "poetas", porém, boa parte da classe nunca folheou um livro sequer, ficando aí difícil entender se são ou não poetas, o que não é o seu caso, pois você é um rato de biblioteca e conhece muito bem a língua portuguesa, que é essencial para quem se propõe a ser escritor. Quando começou seu interesse por literatura?

Flávio de Araújo – Bem Miguel, acho mesmo imprescindível a questão da leitura na formação do escritor. Ler é uma questão de sobrevivência, deve ser entendido como uma questão orgânica, assim como existe a necessidade da água e do alimento no corpo, mas a leitura é principalmente fundamental a quem se envereda no mundo da escrita, tem gente que nunca leu um livro e quer escrever um, talvez por isso que tenha tanta má "literatura" no mercado, assim há poetaços, versadores medíocres, verborragia inútil a dar com pau.

Assim como você, também sou assíduo freqüentador de bibliotecas, mas mesmo assim acho que leio muito pouco, gostaria e isso é uma luta constante, de ler cada vez mais, entretanto já existe em mim o hábito da leitura, e hábito é coisa que você não perde nunca, por isso a importância do incentivo a leitura, da promoção, de aproximar ao máximo o livro do leitor, mesmo que essa pessoa não vá se tornar um Mindlin na vida, que lê cem livros ao ano, o importante é a leitura.

Quanto à aproximação da literatura é necessário dizer que eu sou de uma família de protestantes, e a história dos cristãos está arraigada à leitura de um livro: A Bíblia. Nesse contexto toda criança é impulsionada a obter a sua própria Palavra. Eu falo sempre que minha relação com a Literatura vem da leitura da Bíblia, pois apesar de muitos terem certa aversão, preconceito (que é o mesmo que ignorância), nela qualquer pessoa, por mais humilde que seja, tem contato direto com o Livro que tem mais de três mil anos de vida, e que em termos literários há de um tudo: provérbios, extensas narrativas e gêneros, e que impactou Dante Alighieri, Franz Kafka, John Milton. E que tem importante influência na cultura brasileira e mundial. Tem um episódio na minha infância, que pelo menos eu acho engraçado, é que numa das minhas primeiras leituras no livro de Gêneses, li que Deus, formando o homem do pó da terra, soprou nas narinas o sopro da vida, e o homem se tornou alma vivente, eu achei (e acho) aquilo fantástico. Um dia faleceu uma senhora muito querida da igreja e estavam velando seu corpo, eu cheguei disfarçadamente e comecei a assoprar no nariz da velhinha, tentei isso com mais dois ou três defuntos. Bem o tempo passou, tomei entendimento daquela parte da Escritura, mas até hoje não tenho tanta certeza se consegui ou não ressuscitar a velha (risos), ou qualquer que tenha morrido nos dias da minha infância. Depois seguiram minhas leituras em gibis, muitos deles roubados em sua banca, frente ao antigo bar do Adenes (risos) e livros diversos, e tomei maturidade para ler sobre tudo.

J.M. – Eu senti falta mesmo de alguns gibis da Marvel...

F.A. – Alguns? (risos)

J.M. - Quando começou seu interesse por poesia? E qual seu poeta preferido?

F.A. – Antes de falar sobre isso eu gostaria de dar a definição segundo Nelson de Oliveira sobre poesia: "poesia é a qualidade presente em certos artefatos culturais, capaz de despertar o sentimento do belo e provocar o encantamento estético". E ela está em todo lugar, na pintura, arquitetura, na música, essa é a melhor definição por aquilo que roda a minha cabeça antes mesmo de escrever, mas meu envolvimento pela poesia estruturada no poema começou na escola, lá no meu saudoso CEMBRA, e foi com a leitura do poema "Trem de Ferro" do Manuel Bandeira, que repete "café com pão" que fiquei fascinado com a disposição em que as palavras tomavam ritmo como se fosse uma locomotiva imaginária. Depois em sala de aula teve um pequeno concurso, eu fiz um poema sobre não sei o quê, sendo a melhor ilustração do poema sem poesia, amargando um dos últimos lugares. Eu achava que todos os bons poetas tinham curso superior. Tendo muito receio de mostrar o que fazia, tive a idéia de assinar meus textos com nomes de poetas famosos. Fixava na parede do colégio ou mostrava a alguém, e esperava a reação das pessoas, a maioria achava muito legal. Copiavam, quando liam que o texto era assinado por um Fernando Pessoa ou Shekeaspeare, só que não sabiam que o texto tinha sido escrito por mim. Depois tomei coragem e comecei a assinar meu próprio nome, E por mais que não elogiassem, eu achava sempre que o problema não era meu, e sim deles (risos). Por isso se alguém quer mesmo entrar no ramo da escrita, é melhor não confiar muito em elogios, desconfie de tudo e todos, principalmente dos que não lêem.

Meus autores nacionais preferidos em poesia são: Ferreira Gullar, Carlos Drummond, Miguel Sanches Neto, o fundamental Affonso Romano de Sant‘Ana e Gonçalves Dias. Já os estrangeiros seguem: O argentino Jorge Luis Borges, o francês Baudelaire, que com As Flores do Mal foram de grande impacto nos meus escritos. Mas existe uma infinidade de excelentes poetas. Tento sempre "fugir" dos poetas clássicos, pois eles têm o poder de nos manter muito próximos, limitando a leitura do novo, e há muita gente boa.

J.M. – O polêmico poeta alagoano Ledo Ivo, da Academia Brasileira de Letras, sempre fala que não leva fé nesse papo de inspiração. Que poesia tem é que ser construída. O que você acha dessa opinião e como você escreve seus poemas, rola o papo da inspiração meu velho?

F.A. – Ledo Ivo deve saber do que está falando. Ou não. O escritor é o escritor do outro, ele é muito da percepção, da experiência, nunca o escritor é escritor sozinho. Eu sou muito da formulação manual da poesia, parto pra ação e ela surge, mas minto que é só isso. Entretanto, para mim, basta um bom café feito por minha mãe e a solidão própria dos escritores.

J.M. – Ainda falando em inspiração, eu acompanho seu trabalho desde o início e gosto muito dessa coisa sua de falar no caiçara, no pescador, no mar, entre outros temas que você escreve. Qual a influência da Praia do Sono no seu trabalho?

F.A. – Meus pais nasceram na Praia do Sono e depois de casados foram morar na cidade e aqui tendo seus filhos. Mantive uma relação muito próxima com a Praia do Sono na minha infância, o que marcou para sempre a minha visão de mundo, vendo a cultura e a tradição local. Mas também vendo a luta constante do povo contra os grileiros e barões, que com ganância e ostentação do poder econômico, coagiam (e ainda tentam) um povoado que luta pelo direito de possuir o chão sob seus pés, de ver a dificuldade de acesso até hoje, a falta de energia elétrica...

Minha família é uma família ligada à pesca, meu pai para se ter uma idéia, já foi até a divisa do Uruguai pescar e ainda exerce o ofício de pescador, então absorvi todo o legado de uma oralidade própria dos pescadores, e Jorginho, como você sabe, os pescadores são tidos como mentirosos por contar coisas fantásticas, que só acontecem no mar. Só quem está fora desse contexto acha mesmo que é tudo mentira de pescador. Apesar de eu ter rompido, por assim dizer, o elo do ofício familiar, soube captar esse mundo tão vasto, tão belo e surpreendente! Por exemplo, na década de 80 eu colava o ouvido na Rádio Tupi, pois sempre noticiava sobre o "Monstro de Santos" que estava atacando os barcos naquela região onde meu pai pesca. Na verdade era uma versão brasileira de Mob Dick do clássico de Herman Melville, uma baleia que perambulava por lá. E meu pai ainda traz sempre mais uma grande história de tempestades, de pescarias esquisitas e isso fica no meu imaginário. Zangareio, meu livro, é na verdade uma grande homenagem a meu pai e a todos os que vivem da pesca, porque, por mais simples que uma pessoa seja, ela tem sempre algo fantástico a dizer e a ensinar.

J.M. – Quando você assumiu de fato essa face poética e além do JOTAPÊ, onde você já publicou alguma obra?

F.A. – No princípio eu não sabia onde ia chegar, porque até colocar a prova meus escritos mostrando ao leitor, sujeito ao julgamento e a opinião, dando a cara à tapa, foi um passo gigantesco, porque quando você escreve em qualquer gênero você se expõe. Você só escreve para você mesmo em diários. Mas quando coloca isso num jornal, num site, num livro, você tem a responsabilidade de mostrar algo relevante. Aí entra o Jornal de Paraty, quando publiquei meu primeiro poema em 1999. O JOTAPÊ me deu ritmo, pois tinha que ter material para publicar, pegava meus manuscritos e os colocava debaixo da porta do jornal, quando este ainda era vizinho da casa da Carola, ali na Chácara, depois não parei e cheguei até aqui.

Participei de uma coletânea de uma editora do Rio, mantenho quase sempre atualizado meu blog: www.zangareio.zip.net, tenho textos em alguns sites literários, mas o grande passo é o livro.

J.M – Você está prestes a lançar seu primeiro livro de poesias e gostaria que você comentasse como foi o processo de escolha das obras que serão publicadas, e quem está te dando apoio, pode falar sobre isso?

F.A. – Zangareio é um livro multifacetado e plural, as poesias escolhidas é um apanhado de vários momentos não sendo apenas um livro regionalista, bairrista. Zangareio é um livro de várias falas.

O livro está sendo publicado pelo Selo OFF-FLIP, no projeto Autor OFF, e a organização da OFF é que está me apoiando, aproveito para mandar um grande beijo para todos da equipe OFF-FLIPL. Mas quero ressaltar duas pessoas indispensáveis da organização, e que sem eles o meu livro não sairia: Olga Yamashiro, artista plástica que com perícia de quem conhece poesia, lapidou as arestas desse meu primeiro trabalho e fez uma belíssima capa sobre a fotografia de Vito D‘Alessio. Olga é esposa do meu também grande amigo Ovídio Poli Junior, filósofo, que daqui a pouco se torna doutor em literatura brasileira, e um dos grandes contistas da atualidade, autor de "O Caso do Cavalo Probo", "As Grutas de Altamira" e "Sobre Homens e Bestas". Ovídio abraçou a causa lendo os originais, fazendo críticas e xingando muito (risos) por tudo que ele achava bom ou simpático.

J.M. – Por que o livro se chama "ZANGAREIO", quando será lançado e qual a sua expectativa com essa nova fase em sua vida?

F.A. – Zangareio é um anzol usado para pescar lulas. O livro está dividido em cinco temas, cada tema recebeu o nome de um apetrecho de pesca assim: Zangareio, (que dá nome ao livro) – é o tema que fala da origem caiçara, da minha relação com o mar e tudo que envolve esse mundo, do modo de ser e fazer da cultura e tradição. Puçá – remonta a infância e as coisas próprias da idade. Cerco – é o tema que usei para abordar as questões sociais, pois é fator muito evidente nos meus poemas. Caiçara – aborda mais a questão filosófica, existencial e por fim, todo o "pescado" por assim dizer, é armazenado no Porão-palavras no gelo – que é o último tema, e que como o próprio nome diz, gela uma miscelânea de textos, um apanhado fresco do que tenho pescado ultimamente.

Zangareio será lançado no dia 03 de julho (quinta-feira), na Casa da Cultura, às 23 horas, juntamente com o livro Trindade, de Themilton Tavares, depois da justa homenagem que a OFF-FLIP estará fazendo a você meu amigo.

J.M. – Poesia não é uma literatura fácil de ser vendida. Você se preocupa com isso, ou a princípio a intenção não é viver só de poesia, e aproveitando o gancho, como é fazer parte da equipe do JOTAPÊ?

F.A. – Olha meu caro Jorginho, se alguém está pensando em se tornar escritor para ficar rico pode ir desistindo da idéia. Se está pensando em ficar famoso e milionário escrevendo poesia, aconselho a procurar ajuda psicológica no CIS da Patitiba (mais risos). São raros os escritores, ainda mais os poetas, que vivem somente do que escrevem. A maioria labuta oito horas por dia, caso mais evidente do que estou falando foi Mário Quintana, um ícone da poesia brasileira, que trabalhou como "prático" na farmácia do pai, sobreviveu como tradutor e jornalista, depois que não pode mais trabalhar como jornalista, ficou à deriva desempregado. O poeta Donizete Galvão já dizia: "Escrever poesia no Brasil é viver em claustrofobia." Parte da culpa da poesia ser tão marginalizada no país é devido à má formação cultural dos editores, alicerçados no lucro, pois poesia é vende sim, prova disso está na música e na pintura, só poesia em livro é que não explodiu, pois os editores não entraram em acordo com o mercado, e este ainda não viu uma forma de lucrar em livro de poesia.

Fazer parte do JOTAPÊ hoje é uma das grandes alegrias que tenho, agradeço a você Jorginho por ter me convidado, ao Luís de Carvalho por ter assinado o meu passe nesse time. O Jornal de Paraty é uma das vozes mais audíveis na cidade, junte Globo, JB e O Dia e não terá o tanto de leitores que o JOTAPÊ tem, somos um jornal que tem uma distribuição capilar, semanal, voltado inteiramente à Paraty. Por isso que o JOTAPÊ completa 25 anos de alegria, pois sabe que a população se vê nele, e trabalhar num veículo de comunicação, com uma equipe que conta com: Jorginho Miguel, Luis de Carvalho, Lila e Daniel de Jesus é mesmo um barato!

J.M. – Pra encerrar, parabéns pelo "Zangareio", e suas considerações finais, sim?

F.A. – Sim. Espero todo mundo na Casa da Cultura no dia 03 de julho (quinta-feira) às 23 horas, (é meio tarde, mas a OFF-FLIP só teve esse dia na Casa para sua programação... e olhe lá!), cheguem às 22 horas para assistirem a homenagem ao Jorginho Miguel. Quero ver lá todo mundo. De Trindade à Tarituba, toda a zona costeira e também rural, para juntos festejarmos, pois o livro é mais de vocês do que meu.



Escrito por Flávio de Araújo às 23h03
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Corrupção de homens

 

Talvez essa minha resistência em viver

cubra de propriedade singular meu nome infame.

 

Nascido sob o signo da tragicidade de minha gente

me criei sobre o chão em que os homens só se davam

por completos quando desfaleciam as próprias mães

em desespero.

Os meios diversos em tentar suprir as necessidades afetuosas

punham-nos em vergonha perpétua.

Amar declarado era sempre acinte na boca da minha juventude.

Chorávamos por detrás das bebidas prediletas em forma de gargalhadas.

Nossa fala era a língua do aço em lâmina única,

presa à cintura pelo cordame de couro, ainda cheirando a carne postejada.

E o contestado chegava ao consenso de sangue, que borbotava pela palavra

fincada entre as costelas.

Segredava-se quase tudo. Mas confiava-se muito pouco.

De modo que a verdade de Salazar

era a mentira de Procópio.

 

Mas nem tudo era de se maldizer.

Domesticávamos os animais diversos sobre os ombros, iguanas,

papagaios falantes, aracnídeos.

Vivíamos em serpentários à procura do lacrau de dente

e da áspide que silva.

 

Inventamos modos e modas.

Das ofensas públicas ao soco que corta o ar no diafragma.

Todo mundo há de morrer decerto,

dizíamos cientes que nosso dia

estava crivado em vermelho-carmim

num calendário qualquer

na casa dos muitos desafetos.

 

Mas o dia chega obstinado

como cardume que se entralha na rede de espera.

Tange os olhos, feito cisco que o pranto tenta desmentir

no viver que nos corrompe.

Porém próprio da vida, converte quem dela não se apropria

em vultos e ordinários.

 

Creio em Deus e no tempo.

Pois Deus é infinito em misericórdia.

E o tempo, um gole para embriagar-me de esquecimento.

 

Flávio de Araújo



Escrito por Flávio de Araújo às 00h46
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O Homem do Piano

 

Quem és tu

Homem do Piano?

 

Como foste parar perdido

na ilha britânica de Sheppey,

em Kent?

 

Que olhar perdido procura

nomes, coisas e lugares?

Que mãe aflita chora sobre as teclas

de um velho Steinwey?

Que Handel flui de teus dedos

fugidios

e qual canção dos náufragos

afoga-te o coração?

 

Quem és

Homem do Piano?

 

A que profundidade Lennon

o levou

no Yellow Submarine?

E esse rosto macilento

perpetrado em emblemas

seu terno Casablanca

marejado,

com que lembranças?

 

Quem és tu

Homem do Piano?

 

Como foste parar perdido

na ilha britânica de Sheppey,

em Kent?

 

Flávio de Araújo



Escrito por Flávio de Araújo às 00h31
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