
Corrupção de homens Talvez essa minha resistência em viver cubra de propriedade singular meu nome infame. Nascido sob o signo da tragicidade de minha gente me criei sobre o chão em que os homens só se davam por completos quando desfaleciam as próprias mães em desespero. Os meios diversos em tentar suprir as necessidades afetuosas punham-nos em vergonha perpétua. Amar declarado era sempre acinte na boca da minha juventude. Chorávamos por detrás das bebidas prediletas em forma de gargalhadas. Nossa fala era a língua do aço em lâmina única, presa à cintura pelo cordame de couro, ainda cheirando a carne postejada. E o contestado chegava ao consenso de sangue, que borbotava pela palavra fincada entre as costelas. Segredava-se quase tudo. Mas confiava-se muito pouco. De modo que a verdade de Salazar era a mentira de Procópio. Mas nem tudo era de se maldizer. Domesticávamos os animais diversos sobre os ombros, iguanas, papagaios falantes, aracnídeos. Vivíamos em serpentários à procura do lacrau de dente e da áspide que silva. Inventamos modos e modas. Das ofensas públicas ao soco que corta o ar no diafragma. Todo mundo há de morrer decerto, dizíamos cientes que nosso dia estava crivado em vermelho-carmim num calendário qualquer na casa dos muitos desafetos. Mas o dia chega obstinado como cardume que se entralha na rede de espera. Tange os olhos, feito cisco que o pranto tenta desmentir no viver que nos corrompe. Porém próprio da vida, converte quem dela não se apropria em vultos e ordinários. Creio em Deus e no tempo. Pois Deus é infinito em misericórdia. E o tempo, um gole para embriagar-me de esquecimento. Flávio de Araújo
Escrito por Flávio de Araújo às 01h08
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