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Lupércia e sua caixa de guardados O céu era tenso e os anos de chumbo, e todos à volta tinham potencial para sufrágios, mas era a mordaça um chio convincente. Pessoas sumiam. Às vezes famílias inteiras. Nítido era o protesto nos olhos de cada um, porém, só depois é que foram para as ruas. Falava-se sobre uma suposta invasão do Kremlin, e todo estrangeiro tornou-se uma desconfiada ofensa à pátria. Os Lazarescu inclusive e principalmente. Moravam numa casa feita de uma antiga comoção provinciana, mas que não figurava como pobre diante do passar do tempo. Ali moravam o romeno Emilian Lazarescu e sua filha, Lupércia. Havia ao redor da casa restos de um jardim com algumas flores nobres, e de restante cardos regados com a imaginação frutífera da vizinhança. Lupércia era de grandes olhos claros, neles banhava toda tristeza do mundo. Raro vê-la nas ruas, pois o velho pai impingira nela os temores da ditadura de Ceaucesko. Nunca souberam de uma senhora Lazarescu, e por isso Lupércia trazia em si o peso da casa nos ombrinhos ossudos, nas mãos grandes e despeladas e principalmente no corpo magenta, enleado no mesmo vestido de lese de sempre. Do que gostava de fazer poucos sabiam, mas sempre balbuciava o hino romeno: Olhai, vultos grandiosos, Mihai, Estefânio, Corvino, A romena nação dos vossos descendentes, Com o braço armado, com o fogo dos vossos paladinos, "Liberdade ou morte!" bradamos todos. A menina Lupércia era uma figura por detrás da vidraça a mirar um horizonte inexistente no bairro e sua história era só. Lupércia não se criançava como as outras, se distraía apenas com um lenço bordado com o nome da mãe. Assim bandeirolava as insígnias da única pátria que conhecia desde o ventre. A mãe escrita num pano, feito o próprio Sudário. Depois de penteá-lo com seus dedinhos, guardava-o numa caixa de madeira junto com uma caixa de fósforos e uma vela de orações, pois quisesse a mãe um tanto de luz achá-la-ia com o fogo e a escuridão. Lupércia dava-se por satisfeita e dormia assim. Certa feita o velho disse que acordou com um barulho na porta, ao abrir deparou-se com um porco enforcado em sua pequena varanda. O animal estava pintado de vermelho. Mas contrariando a reação natural dos velhos, Lazarescu não retirou, por espanto, aquele pêndulo cadáver, cabendo aos bichos maturarem sua carcaça por quase uma semana inteira, até que os vizinhos mais próximos o recolheram, pois ninguém mais era capaz de não amaldiçoar aquele que fizera tamanha sandice com o bairro. Com destemores, Lupércia começava a impor seus trejeitos para pequenas compras a pedido de seu pai (ingredientes para o preparo da sarmale e mamaliga), mas era somente então padaria/casa, casa/mercado e casa/casa. Foi numa dessas raras vezes que um pequeno grupo de crianças da rua de cima a cercou e lhe indagaram sobre a Rússia. - Eu não conhecer Rússia - Lupércia respondeu com uma língua pesada, entretanto, posicionando-se amiga por detrás dos dentes semicertos. - Mentirosa! Todo mundo da cidade sabe muito bem que você é comunista! - retalhou uma menina beirando a idade de Lupércia com o consenso do restante do bando. Mas antes da ofendida desdizer a sentença, eles a derrubaram e esfregaram seu rosto no chão batido. Xingaram-na diversas vezes de comunista como se o diabo fosse o próprio orador da dialética. Num demorado instante, Edméa, a vendedora de hortaliças do bairro, enxotou aquelas crianças (que possuíam procuração das vespas) de sobre a pobre menina romena. A senhora Edméa limpou os cabelos de Lupércia e, olhando firmemente nos olhos daquela criança sumida em seu próprio corpo, pediu para que o pai Lazarescu voltasse para a Rússia, pois assim a paz tomaria a todos. Paz para o bem e também para o mal. Lupércia chegou a sua casa e resguardou o pai do que lhe acontecera. Procurou seus modos de invisibilidade, o que a casa predispunha em mil sombras. Subiu ao quarto com um engasgo no peito, pois queria entender o mundo e a complexidade das pessoas. Desejava saber da mãe, de quem o pai falava tão pouco, tipo o comprimento dos cabelos, que brincos, a comida que mais gostava de fazer. Imaginou diminuir-se na medida de poder morar em sua caixa de guardados. Da caixinha de fósforos faria seu travesseirinho; e da vela de orações, um abajur. Depois se cobriria com o lenço no mais engenhoso abraço de mãe. E ficaria assim, mas não tão para sempre, pois queria também o pai velho, que tinha uma pústula no rosto feito uma flor entregue aos espinhos. Ferida aberta em vincos de tristezas, mas que sua pequena Lupércia cumpria a tarefa diária de tresmalhar com pétalas de afagos. Desejava assim cuidar dele, abraçá-lo feito um lenço confeccionado com a eterna fibra familiar. Naquela tarde de uma quarta-feira morna de maio, Lazarescu fez entrar à casa um homem de terno rente, as medidas esquadrinhadas por exatidão de alfaiate. O fez sentar-se, o que por sinal era a concordata de seu ofício: apertar mãos e posicionar-se comodamente para explicações ao abrir a valise de couro de texugo. Lupércia a mando de Lazarescu trouxe um bule de café fresco. Serviu primeiro o pai, e aos olhos da estranha visita fez o mesmo. Lupércia por não saber o português não fez questão de se embaraçar com os documentos da apólice de seguro sobre a mesa. Por fim, o pai ofertou sua mão a ser apertada novamente, o que o ser alinhado teve muito gosto de compartilhar, mas não antes de perguntar ao senhor Lazarescu o nome da filha. - Lupércia - a própria respondeu tomando as rédeas de seu nome, para surpresa do pai. Dias após a estranha aparição daquele homem, a menina começou a notar, por incômodo, no velho pai a mania de arrumar as malas para ir a lugar algum. Disse à filha que a vida de uma pessoa deve estar dentro de uma mala de partir. Mas para onde partir? A menina indagava, pois somente a casa era o destino de ambos. De todo modo Lupércia deixava pronta ao canto do quarto sua mala de ficar, modo de subserviência à esquisitice do pai. Certo que levaria a mãe que nunca vira. A madre que em carne de tecido dormitava junto a uma caixa de fósforos e o restolho de uma vela de orações, pois quisesse a mãe um tanto de luz, teria os apetrechos de fogo e a escuridão necessária quando Lupércia fechasse a pequena caixa. Sentindo fome, Lupércia procurava um pouco de pão no armário, ao que o pai logo em seguida respondeu que não havia. Por isso a fez atentar-se à explicação de que o governo tinha bloqueado sua mísera aposentadoria. Por essa questão Lazarescu começou a vender as coisas da casa por quase valor nenhum: cadeiras, cômodas, tudo para trazer pão e carne à sua menina. O velho perambulava pela casa em busca do que vender. Subiu ao quarto da filha e viu a cama, o guarda-roupas e também a pequena caixa dos guardados da menina. Abriu-a sem sentimento de culpa. Encontrou o lenço que lhe golpeou de saudades da esposa. Dera o lenço à filha em espécie de herança; também havia dentro um toco de uma vela de orações, e uma útil caixa de fósforos. Um dia a menina romena enrodilhava a mãe em forma de lenço, quando sentiu um forte cheiro de queimado, vindo detrás da porta dos fundos da casa. Ao abrir deparou-se com fortes chamas que entapetavam o assoalho empedernido. Uma flama lambericou uma de suas mãozinhas, mas, por susto, nem gritou. O pai de pronto a agarrou pelos braços, e a levou para fora da casa, já tomando as formas de incêndio. - Que pelo menos salvasse a mãe! - Lupércia gritava em sua língua, e, num rompante, Lupércia se desprendeu em desatino das distraídas tenazes paternas que a mantinham segura da brasacasa. O velho, na suprema investida de tentar agarrá-la novamente, foi persuadido a se conter por umas gentes com força e desânimo. A senhora Edméa, em pavor, ribombava aos berros que o fogo poderia espalhar-se por todo quarteirão, e se fazia prestimosa ao ceder alguns baldes para conter as chamas sedentas. Os bombeiros não tinham perícia para aplacar a danação da temperatura elevada, e a polícia colhia informações contraditórias. E o velho ali, Lazarescu, amarfanhado por cem mãos, tentando por grito e descabelo repatriar-se em viva esperança pelo arquétipo da tricotomia romena que a menina Lupércia simbolizava. Lamuriava-se em guturais da influência eslava, mas que por fim era essa universal compreensão dos que se desesperam, ao ver o fumeiro espesso maniatar a imagem do próprio lar, e se transformar, já nuvem, em mau agouro, dilapidando aquele tão azul do céu das estrelas, dos pássaros. Do azul-azul dos olhos de céu da menina Lupércia. A menina que fora buscar-se nas tenras lembranças. No seu punhado de história que a fez lançar-se às labaredas. Que fogo nenhum, malevolente que fosse, fagulharia sequer um único fiapo daquele desígnio vestido de Lupércia. Fato que aquela gente pouco abismada nunca saberia, pois aos berros por água/água!! se aguava em derrubar as flamas que alçavam suas queimações pelas vigas e taramelas. Se esgueirando entre cirros negros e luzernas, a menina subiu ao quarto, onde, por pouco, as flamas não tinham se enfezado a crepitar os poucos móveis de linhagem de cerne azul; como também a caixa onde sua mãe em forma de lenço dormia na placidez dos tecidos de mãe. Lupércia sentou-se e pôs a caixa com amabilidade sobre o ventre. A embalava entre estalos diversos cantarolando versos de seu hino preferido: com o fogo dos vossos paladinos, “Liberdade ou morte!” bradamos todos. Abrindo sua caixa de guardados viu que algo faltava. Mas pouco importava agora se soubesse que a caixa de fósforos que protegia com tanto desvelo estava no bolso do pai Lazarescu, pois somente lhe bastava o lenço em forma de mãe, a vela de orações e a escuridão que, outrora necessária, se esvaía com tanta luz, com tanta luz, com tanta luz. Flávio de Araújo
Escrito por Flávio de Araújo às 13h21
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QUEM SABE? Quem sabe Inda teremos bailes no clube Pares dançando valsas agarradinhos Falando de amor em segredinhos Quem sabe? Quem sabe Veremos blocos dançando na rua, Moças fantasiadas de lamê, Rapazes calçando pé de anjos, Saxofone, trombone, banjos. Quem sabe? Quem sabe, Ainda teremos retreta na praça, Pares passeando de mãos dadas Aproveitando para namorar Na inocência de amar. Quem sabe? Quem sabe Se meus sonhos e lembranças, Um dia voltam a acontecer, Salvando minhas esperanças, Antes de meu fim acontecer. Quem sabe? Zezito Freire Saiba um pouco da vida do escritor Zezito Freire pelas palavras de Ana Bueno, colaboradora de O PARATIENSE. Texto: Ana Bueno / Fotos: Lia Capovila José Carlos de Oliveira Freire, ou simplesmente Zezito - como é conhecido na cidade, nasceu no sobrado em frente a Praça da Matriz, onde hoje funciona o escritório do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. E foi em Paraty que ele viveu sua infância e juventude. Hoje aos 79 anos é um dos maiores conhecedores da história casual da cidade. Numa época em que por aqui não havia luz elétrica, estradas, carros, televisão e a economia do turismo, Zezito já observava os acontecimentos cotidianos, conversava com os mais velhos e guardava na memória um precioso acervo de casos e histórias de uma cidade típica interiorana, com seus costumes e hábitos singulares. Apesar das dificuldades econômicas e de falta de recursos da época, Zezito estudou e aprendeu música - o pai dele que tocava na Banda Lira da Juventude, incentivou a sua iniciação musical. Sua experiência profissional começou aos 15 anos quando foi trabalhar na Farmácia Esperança (onde hoje funciona o Café Paraty) depois, trabalhou na Santa Casa como escrivão, tesoureiro e até provedor. Nessa ocasião já tinha se casado com Helena Freire, com quem teve seus 4 filhos. Zezito trabalhou também como assessor administrativo da prefeitura de 1954 até 1972 e conciliava todas as atividades com um escritório particular de contabilidade - que até hoje pertence à família. "Aprendi este ofício com um padre. E foi por causa do trabalho que comecei a ter contato com pessoas mais velhas do que eu e isso me deu horizontes na vida. Participava de reuniões e conversas e ia t o m a n d o conhecimento dos fatos" acrescenta. Além de ser testemunha viva de vários acontecimentos na cidade, Zezito é um curioso nato, sempre buscando conhecer mais sobre sua terra e sua gente. "O Zuzú e o Gibrai sabiam muito sobre Paraty", lembra Zézito saudoso dos amigos. Toda essa curiosidade e bagagem adquirida ao longo dos anos motivaram um dom descoberto já em idade adulta. "Comecei a escrever em 1974 quando tinha que viajar toda a semana de ônibus para o Rio. Nessas viagens eu esboçava pequenas histórias, recordações de Paraty. Um dia joguei tudo fora, só mais t a r d e comecei a reescrever" diz. Por entender o importante relato que Zézito vinha fazendo em suas crônicas que o amigo e jornalista Luís de Carvalho, proprietário do JORNAL DE PARATY, criou uma coluna exclusiva para ele. Mais tarde Zézito reuniu em um livro essas histórias e publicou CRÔNICAS DE PARATY, nos anos seguintes foram publicados mais dois livros pela LITTERIS EDITORA, o primeiro O GAMBOÃO e o segundo JUTHAY, esses últimos histórias de ficção. A partir de agora compartilharemos com vocês um pouco de Paraty através das lembranças do Zézito. São crônicas do cotidiano, casos de pessoas que já viveram aqui, do antigo cinema, dos circos que visitavam a cidade, de quando a luz elétrica chegou por aqui... São fatos tão importantes quanto a história oficial de Paraty.

 
Escrito por Flávio de Araújo às 01h41
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