Zangareio de Flávio de Araújo


 

Bisolho

 

          Ele

não olhava para

          Ela

não olhava para

          Ele

 

Mas foi amor

à primeira-vista.

 

E depois de muito não

se olharem

é que descobriram

que ambos eram

 

Vesgos.

 

 

Flávio de Araújo

 



Escrito por Flávio de Araújo às 20h16
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O Coração Em Pratos Limpos

 

A intensidade do amor

é feita com

feijão

e

farinha.

 

O amor só

não alimenta o amante.

 

Flávio de Araújo



Escrito por Flávio de Araújo às 20h13
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lecter0103.jpg Hannibal Lecter image by Umbra22

Epitáfio a um antropófago

 

Aqui jaz

Hannibal Lecter

que ao devorá-los

juntou a fome

com a vontade

de comer.

 

Flávio de Araújo

 



Escrito por Flávio de Araújo às 20h05
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Um Sábio lhe dirá três ou cinco conselhos para o bem viver.

Mas a estupidez de um homem pode lhe ensinar mil coisas.

 

Flávio de Araújo



Escrito por Flávio de Araújo às 23h40
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Meia Verdade e Dez Centímetros de Papel Higiênico

Fazem Toda a Diferença

 

Flávio de Araújo



Escrito por Flávio de Araújo às 23h35
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Todo Segredo Deve Ser Guardado.

Exceto os que juramos não contar a ninguém.

 

Flávio de Araújo



Escrito por Flávio de Araújo às 23h31
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          Extra! Extra!

Cientistas desenvolvem um eficaz medicamento

 contra a corrupção na prole dos ratos.

Os testes estão sendo feitos em políticos de laboratório.

 

                                          Flávio de Araújo



Escrito por Flávio de Araújo às 23h27
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Bem gente, tenho postado textos antigos e também novos, mas não com tanta intensidade, mas estou disposto, sem alerta, para colocar mais coisas, vídeos e outras brevidades com a margem de tempo diminuta. Espero a compreensão da galera, e também os devidos comentários pois sinto que o povo não tem feito isso ultimamente, apenas algumas personas como  Beleléu e minha queria e amável Jéssica, essa avassaladora mulher em minha vida.

com carinho por todos vocês

 

Flávio de Araújo



Escrito por Flávio de Araújo às 23h16
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Para quem tá viajando na maionese

a picareta cultural não é um fenômeno
de explicações.

é uma festa que mistura elementos
fundamentais à formação intelectual
dos indivíduos. a clássica trindade
que gera todo tipo de amizades:
cachaça, poesia e música.




tudo no mesmo lugar e ao mesmo tempo.

diferentemente do que acontece
fora desse mundo de utopia, seus
organizadores sofrem de distúrbios mentais
gravíssimos e não visam ter lucro nenhum
com o evento (muito sério).

a entrada do evento é FRANCA e tudo
que acontecerá nele depende única e exclusiva-
mente da presença da galera ('o dinheiro ou
a galera?' - ver in: justus, roberto - 100 contra 1;
ed. SBT; 2009).

queremos que todos possam curtir
e usufruir dessa brincadeira (ia usar o termo
picadeiro, mas isso é batido e circense,
o que infelizmente me deixa mal porque
não me dou bem com palhaços).

ficaqui o mais que sincero convite
aos simpáticos representantes dessa galeria
de música cachaça et poesya.

não vacilem e apareçam,
porque o que importa mesmo
é fazer história.

rá!



Escrito por Flávio de Araújo às 11h29
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A mulher debruçada na janela

 

A mulher debruçada na janela

Zomba do homem com muletas

Escarnece do padeiro banguela.

A mulher debruçada na janela

Zomba dentro do biombo.

Mulher sem coração

Zoa o frango da botica

E o Elesbão fumando pita.

Mulher de micagem

Da janela imita o pastor

Arremeda também o frade.

Mulher de beiço pintado.

Joga água nos turistas

Passa trote aos taxistas

Gargalha mais

Quando bem sucedida.

A mulher debruçada na janela

Não tem mãe viva.

Não tem filha debruçada na janela

Sequer um canário Belga.

Certo dia

A dona zombeteira

Não abriu a janela

E deram falta do seu debruço

Do cuspo de sua goela.

Foi então que souberam

Que a mulher debruçada na janela,

Tinha ido operar as varizes.

 

Flávio de Araújo



Escrito por Flávio de Araújo às 00h14
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Segredos

Proposto aos enigmas

O mundo será pequeno demais.

O céu será tocado

O mar varrido por suas mãos.

Mas nunca saberás de verdade

O que se esconde, dentro

De uma bolsa de mulher.

 

 

Flávio de Araújo



Escrito por Flávio de Araújo às 23h39
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                                                        ...Balão

             

         Revolução a bordo de um ...

 

Balão

 

 

Nada tão artifício humano

Movido pelo sopro de ninguém.

 

S          o          l           t              o

 

Balão

 

a esmo.

gás volátil

a serviço

               do

                             pretexto            do

                                                        

                                                                   V

 

                                                              o

 

 

                                                                   o.

                                         

 

Balão.                                                         ã    

 

                                                         l

                                                 a

 

                                          B

 

 

Todo Balão é um sufrágio ao céu

E uma ameaça à tirania.

 

 

 

Flávio de Araújo



Escrito por Flávio de Araújo às 16h52
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O corpo que flutuava

Um corpo flutuava no mar de azeite
E foi essa a maior lembrança de sua pouca juventude.
Não era uma carcaça de navio
Nem era uma parte da floresta
Que havia se desprendido para o mar
Mas a sólida matéria que um dia Deus soprou
O seu espírito.
Estava vestida de cinza como a escura borrasca do céu.
No longuíssimo cabelo se apinhavam crustáceos
De mil cores e sua pele mantinha a nitidez
De mulher cuidada com especiarias
Mas não havia beleza alguma.
A face dos pescadores estava mais salgada,
Feito peixe que salgavam pois escorria de seus olhos
Indo parar em suas bocas rachadas, um líquido
Que lembrava o gosto de salmoura. E em suas cabeças
O incessante clamor pelo poder do sangue de Jesus.
Era um corpo de mulher
Era o que se sabia.
As vagas do mar a puxavam para uma dança
Sem música, não aparentava madureza
Nem sinal que a identificasse.
Só se ouvia meu Deus!
Várias vezes meu Deus!
Meu Deus!
Era um corpo de mulher que flutuava
E ela nem fazia parte das coisas do mar.
Era alguém em que se procurava uma semelhança
Um nome, uma vontade de morte.
O mar de almirante se fez tormenta
Veio o céu coberto de fel dos peixes
O velho Marçal secava sargos
No varal de bambu gigante.
Uma revolução explodia naquele ano de 64,
E meu avô a luz de uma lamparina a querosene
Sempre indagando aos netos a sabença da história
Do corpo que flutuava.
Era uma história que estávamos velhos de saber
Mas sempre dizíamos que não sabíamos.
E ele contava a mesma história
Que há tempos se contava, que há tempos
Deixava nossas cabeças fermentadas.
Era um corpo de mulher que flutuava num mar de azeite.
Essa era a maior lembrança da pouca juventude de meu avô.

Flávio de Araújo



Escrito por Flávio de Araújo às 01h17
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foto: Sérgio Fonseca

 

Mulher amarga seguindo cortejo

 

De terço nas mãos e alma compungida

renega o deus que roubou o marido

enforcando as contas de madrepérola.

Reprime o céu belo em azul infinito.

Roga que sobre o resto de seus dias

a monção violeta de trevas cubra a noite

feito manto de lamento.

O caminhar contido como o andar servil

de uma pagadora de promessas.

Andarilha que nega a remissão da paga

pois não é fé de romeira

mas descabelo de louca.

O olhar infeccionado, ardil em pus,

putrefaz quem o encara.

Dela fogem todas as raças de cães

a uivar desembestados.

Segue sem pestanejar

como se não restassem caminhos

mas a precisão dos passos.

É notório o choro que balbucia pequeno.

Prestam-lhe pêsames e se condoem

pelo fatídico episódio de dor

porém não há quem não afirme,

em silêncio,

a sua preferência pelo morto.

 

Flávio de Araújo



Escrito por Flávio de Araújo às 01h11
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Corrupção de homens

 

Talvez essa minha resistência em viver

cubra de propriedade singular meu nome infame.

 

Nascido sob o signo da tragicidade de minha gente

me criei sobre o chão em que os homens só se davam

por completos quando desfaleciam as próprias mães

em desespero.

Os meios diversos em tentar suprir as necessidades afetuosas

punham-nos em vergonha perpétua.

Amar declarado era sempre acinte na boca da minha juventude.

Chorávamos por detrás das bebidas prediletas em forma de gargalhadas.

Nossa fala era a língua do aço em lâmina única,

presa à cintura pelo cordame de couro, ainda cheirando a carne postejada.

E o contestado chegava ao consenso de sangue, que borbotava pela palavra

fincada entre as costelas.

Segredava-se quase tudo. Mas confiava-se muito pouco.

De modo que a verdade de Salazar

era a mentira de Procópio.

 

Mas nem tudo era de se maldizer.

Domesticávamos os animais diversos sobre os ombros, iguanas,

papagaios falantes, aracnídeos.

Vivíamos em serpentários à procura do lacrau de dente

e da áspide que silva.

 

Inventamos modos e modas.

Das ofensas públicas ao soco que corta o ar no diafragma.

Todo mundo há de morrer decerto,

dizíamos cientes que nosso dia

estava crivado em vermelho-carmim

num calendário qualquer

na casa dos muitos desafetos.

 

Mas o dia chega obstinado

como cardume que se entralha na rede de espera.

Tange os olhos, feito cisco que o pranto tenta desmentir

no viver que nos corrompe.

Porém próprio da vida, converte quem dela não se apropria

em vultos e ordinários.

 

Creio em Deus e no tempo.

Pois Deus é infinito em misericórdia.

E o tempo, um gole para embriagar-me de esquecimento.

 

Flávio de Araújo




Escrito por Flávio de Araújo às 01h08
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